quarta-feira, 6 de junho de 2012


Leitura do poema de Jerônimo Baía, intitulado Favorecendo com a boca e desprezando com os olhos, que pertence a obra Fênix Renascida.
 

Favorecendo com a boca e desprezando com os olhos

 Quando o Sol nasce e a sombra principia,

A doce abelha, a borboleta airosa

Procura luz ardente e fresca rosa,

Que faz a terra céu e a noite dia.


Mas quando a flor se entrega, à luz se fia,

Uma fica infeliz, outra ditosa,

Pois vive a abelha e morre a mariposa

Na favorável rosa a chama ímpia.



Fílis, abelha sou, sou borboleta,

Que com afeto igual, com igual sorte,

Busco em vós melhor luz, flor mais seleta.



Mas quando a flor é branda, a chama é forte,

Néctar acho na flor, na luz cometa;

A boca me dá vida, os olhos morte.

(Jerônimo Baía - Fênix Renascida)

O texto acima trata-se de um tipo de composição poética chamada soneto. Possui dois quartetos e dois tercetos. Pertence ao estilo cultista, pela caracterização da linguagem culta, pelo aspecto formal rebuscado, pela valorização dos jogos de palavras e pelo abusivo emprego das figuras de linguagem, embora traga uma linguagem simples e de fácil entendimento.
O poema possui uma musicalidade que é dada pelo ritmo e pelas rimas. O ritmo é dado pela sucessão de sílabas fracas e fortes. Todos os versos da primeira estrofe são decassílabos, ou seja, possuem dez sílabas métricas. A escansão dos versos ficaria da seguinte forma: 
Quan / do o / Sol / nas / ce e a / som / bra / pri / nci / pi / a,

                         1          2     3      4         5          6       7     8      9     10



A / do / ce a / be / lha, a / bor / bo / Le / ta ai /ro / sa

                          1    2     3       4        5       6      7     8       9     10



Pro / cu / ra /luz / ar / den / te e / fres / ca / ro /as,

                            1      2     3    4    5     6         7      8      9    10



Que / faz / a / te / rra / céu / e a / noi / te / dia/

                                   1    2     3   4     5     6        7     8     9     10


Neste último verso a última sílaba é tônica, portanto, ela conta no esquema métrico. Também é feita uma junção entre o "e" e o "a" da sétima sílaba métrica. Para assim, ficarem dez sílabas.
É possível observar, que em todos os versos do poema, a sexta e a décima sílaba recebem uma ênfase sonora maior. Tendo o seguinte esquema métrico: ER10 (6,10).
Outro dado importante referente à sonoridade são as rimas. Rimas são repetições de alguns sons iguais ou semelhantes, no final ou no interior dos versos. No caso de “Favorecendo com a boca e desprezando com os olhos”, as rimas se dão ao final dos versos, como por exemplo, nos versos da primeira estrofe (principia/dia, airosa/rosa).
Em “Favorecendo com a boca e desprezando com os olhos", o eu lírico descreve seus próprios sentimentos perante a amada, buscando nela o melhor caminho, mesmo sabendo que é difícil encontrá-lo, pois essa mulher é deslumbrante, mas só lhe traz o sofrimento, como é possível notar no verso onze: "Busco em vós melhor luz, flor mais seleta".
O eu lírico apresenta-se de forma conformada, pois ama a figura feminina, mas a conhece muito bem, sabe de suas virtudes e seus defeitos. Conhece seus pontos positivos e negativos. Sua aparência física seria um de seus pontos positivos e de negativo a essência, a origem, tudo que se deve dar mais valor no ser humano. Assim, a figura feminina é meiga e bonita a vista dos olhos, mas revoltante nas suas atitudes, levando o eu lírico à angústia e ao pecado mundano.
É possível observar a existência da antítese no poema, e há uma antítese matriz: vida/morte, à volta da qual gravitam outras antíteses. Nota-se uma transição, utilizando a imagem da abelha (inseto trabalhador) e da borboleta (inseto vistoso), para descrever como o eu lírico se sente ao pensar na mulher amada. Mostrando que existem dois lados, o lado do sol, da abelha, da rosa, do céu, contrapondo com o lado da beleza, da sombra, da luz ardente, da crueldade. A partir das características que acompanham os substantivos nesse poema, podemos perceber que os modificadores da abelha são todos bons e pacíficos, já os da borboleta, nos levam ao pecado, por enfatizarem tanto as marcas da vaidade humana.
No poema, o autor joga com as palavras, com as construções e com as imagens. A mensagem é banal e a roupagem exagerada. As hipérboles engrandecem, quer a rosa e a luz, quer a abelha e a borboleta. Além disso, traduzem a valorização de Fílis e a relação do poeta com essa entidade. No verso “Néctar acho na flor, na luz cometa;” percebe-se a presença da figura de linguagem denominada hipérbato, pois há uma inversão, uma troca na ordem direta dos termos da oração. Em sua ordem direta, o verso ficaria da seguinte forma: “Acho néctar na flor, na luz cometa”.
Há também a presença da figura de linguagem denominada elipse, que é a omissão de um termo que anteriormente já fora expresso, como podemos observar no quarto verso da primeira estrofe: “Que faz a terra céu e a noite dia”, quando faz referência a luz ardente e a fresca rosa. Também é possível notar a comparação que o eu lírico estabelece entre ele, a borboleta e a abelha; o eu lírico também procura em Fílis como a abelha a flor mais seleta (a boca) e como a borboleta a melhor luz (os olhos). Mas como a elas também a boca lhe dá vida e os olhos morte.
Deste modo, o tema apresentado no poema é o sofrimento por um amor não correspondido. Existe uma relação entre o título do poema e seu universo semântico, em que o poema é dedicado à mulher amada pelo poeta (Fílis) e este lhe fala sobre os sentimentos, mas lê nos olhos dela o desprezo que o mata de desgosto.