Leitura do poema de Jerônimo
Baía, intitulado Favorecendo com a boca e
desprezando com os olhos, que pertence a obra Fênix Renascida.
Favorecendo com a boca e desprezando
com os olhos
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a terra céu e a noite dia.
Mas quando a flor se entrega, à luz se
fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa a chama ímpia.
Fílis, abelha sou, sou borboleta,
Que com afeto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais
seleta.
Mas quando a flor é branda, a chama é
forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa;
A boca me dá vida, os olhos morte.
(Jerônimo Baía - Fênix Renascida)
O texto acima trata-se de
um tipo de composição poética chamada soneto. Possui dois quartetos e dois
tercetos. Pertence ao estilo cultista, pela caracterização da linguagem culta,
pelo aspecto formal rebuscado, pela valorização dos jogos de palavras e pelo
abusivo emprego das figuras de linguagem, embora traga uma linguagem simples e
de fácil entendimento.
O poema possui uma musicalidade que é
dada pelo ritmo e pelas rimas. O ritmo é dado pela sucessão de sílabas fracas e
fortes. Todos os versos da primeira estrofe são decassílabos, ou seja, possuem
dez sílabas métricas. A escansão dos versos ficaria
da seguinte forma:
Quan / do o / Sol / nas / ce e a / som
/ bra / pri / nci / pi / a,
1
2 3
4 5 6 7
8 9 10
A / do / ce a / be / lha, a / bor / bo
/ Le / ta ai /ro / sa
1 2
3 4 5
6 7 8
9 10
Pro / cu / ra /luz / ar / den / te e /
fres / ca / ro /as,
1 2
3 4 5
6 7 8
9 10
Que / faz / a / te / rra / céu / e a /
noi / te / dia/
1 2
3 4 5
6 7 8
9 10
Neste último verso a última sílaba é tônica, portanto, ela conta no esquema métrico. Também é feita uma junção entre o "e" e o "a" da sétima sílaba métrica. Para assim, ficarem dez sílabas. É possível observar, que em todos os versos do poema, a sexta e a décima sílaba recebem uma ênfase sonora maior. Tendo o seguinte esquema métrico: ER10 (6,10).
Outro dado importante referente à
sonoridade são as rimas. Rimas são repetições de alguns sons iguais ou
semelhantes, no final ou no interior dos versos. No caso de “Favorecendo com a
boca e desprezando com os olhos”, as rimas se dão ao final dos versos, como por
exemplo, nos versos da primeira estrofe (principia/dia, airosa/rosa).
Em “Favorecendo com a boca e
desprezando com os olhos", o eu lírico descreve seus próprios sentimentos
perante a amada, buscando nela o melhor caminho, mesmo sabendo que é difícil encontrá-lo,
pois essa mulher é deslumbrante, mas só lhe traz o sofrimento, como é possível
notar no verso onze: "Busco em vós
melhor luz, flor mais seleta".
O eu lírico apresenta-se de forma conformada, pois ama a figura
feminina, mas a conhece muito bem, sabe de suas virtudes e seus defeitos. Conhece
seus pontos positivos e negativos. Sua aparência física seria um de seus pontos
positivos e de negativo a essência, a origem, tudo que se deve dar mais valor
no ser humano. Assim, a figura feminina é meiga e bonita a vista dos olhos, mas
revoltante nas suas atitudes, levando o eu lírico à angústia e ao pecado
mundano.
É
possível observar a existência da antítese no poema, e há uma antítese matriz:
vida/morte, à volta da qual gravitam outras antíteses. Nota-se uma transição,
utilizando a imagem da abelha (inseto trabalhador) e da borboleta (inseto
vistoso), para descrever como o eu lírico se sente ao pensar na mulher amada.
Mostrando que existem dois lados, o lado do sol, da abelha, da rosa, do céu,
contrapondo com o lado da beleza, da sombra, da luz ardente, da crueldade. A
partir das características que acompanham os substantivos nesse poema, podemos
perceber que os modificadores da abelha são todos bons e pacíficos, já os da
borboleta, nos levam ao pecado, por enfatizarem tanto as marcas da vaidade
humana.
No poema, o autor joga com as palavras, com as construções e com as imagens. A
mensagem é banal e a roupagem exagerada. As hipérboles engrandecem, quer a rosa
e a luz, quer a abelha e a borboleta. Além disso, traduzem a valorização de
Fílis e a relação do poeta com essa entidade. No
verso “Néctar acho na flor, na luz
cometa;” percebe-se a presença da figura de linguagem denominada hipérbato,
pois há uma inversão, uma troca na ordem direta dos termos da oração. Em sua
ordem direta, o verso ficaria da seguinte forma: “Acho néctar na flor, na luz
cometa”.
Há também a presença da figura de linguagem denominada elipse, que
é a omissão de um termo que anteriormente já fora expresso, como podemos
observar no quarto verso da primeira estrofe: “Que faz a terra céu e a noite dia”, quando faz referência a luz
ardente e a fresca rosa. Também é possível notar a comparação que o eu lírico
estabelece entre ele, a
borboleta e a abelha; o eu lírico também procura em Fílis como a abelha a flor
mais seleta (a boca) e como a borboleta a melhor luz (os olhos). Mas como a
elas também a boca lhe dá vida e os olhos morte.
Deste
modo, o tema apresentado no poema é o sofrimento por um amor não correspondido.
Existe uma relação entre o título do poema e seu universo semântico, em que o
poema é dedicado à mulher amada pelo poeta (Fílis) e este lhe fala sobre os
sentimentos, mas lê nos olhos dela o desprezo que o mata de desgosto.