O MUNDO HUMANO X O MUNDO DIVINO NAS
EPOPÉIAS
Podemos considerar a epopéia Eneida
como uma obra de tom mitológico e histórico. Mitológico por utilizar lendas
tradicionais do povo romano para narrar a história do herói Enéias e histórico
por narrar os grandes feitos heróicos de um povo, enaltecendo a origem do povo
romano bem como os feitos do imperador Augusto.
O povo romano é descendente do herói
Enéias, filho da deusa Vênus e do mortal Anquises. Como podemos perceber, o
povo daquela época utilizava a mitologia para explicar todas as coisas. Havia
envolvimento de humanos com deuses, nasciam filhos destes casos e os deuses
estavam envolvidos nos assuntos terrenos. Com o tempo, os mitos foram
adquirindo uma conotação literária. A lenda de Dido, por exemplo, justifica um
acontecimento extremamente importante da história de Roma: as Guerras Púnicas.
Como dito anteriormente, em Eneida
percebemos o tom mitológico ao ponto que a todo momento os deuses estão
influenciando e conspirando a favor ou contra os humanos. Todas as desventuras
que acontecem com o herói Enéias, por exemplo, estão associadas à deusa Juno.
Ela está a todo momento tentando atrapalhar a vida de Enéias, porque ela não
quer que ele funde uma nova Tróia, pois ela já sabia que a descendência de
Enéias, os romanos, iriam destruir a cidade que lhe era mais querida, a cidade
de Cartago.
Percebemos aqui o sentimentalismo
existente entre um ser divino e toda uma cidade de seres mortais, os quais
prestavam culto aos deuses, faziam oferendas, em especial a deusa Juno, e
portanto, eram queridos por ela, ela nutria um carinho especial por aquela
cidade, evidenciando assim, o contato direto e sentimental entre o mundo divino
e o mundo humano.
A deusa Juno engana a deusa Vênus,
mãe de Enéias e Vênus desperta a paixão em Dido por Enéias. Porém, como
sabemos, Enéias era conhecido, principalmente por sua pietas, que para os
romanos consistia em obediência total aos deuses, ou aos superiores, mesmo que
para essa obediência fosse necessário se restringir de algo que desse prazer e
alegria. Enéias demosntra ser um homem de missão, cumpre seus deveres.
Portanto, mesmo se envolvendo amorosamente com a rainha Dido, Enéias não se
deixa levar pela paixão, e abandona Dido, a rainha de Cartago.
"E
já as terras eram inundadas com a nova luz da Aurora[...] quando a rainha, do
alto do palácio, vendo a limpidez do dia que começava a surgir e a frota que se
afastava com as velas enfunadas, percebeu que a praia estava deserta e o porto
sem remadores. Três e quatro vezes, com sua mão feriu o belo seio e arrancou os
loiros cabelos: Ai de mim! Júpiter, ele partirá"[...]
Enéias não se comove com o
sofrimento de Dido, e assim que Júpiter envia Mercúrio o mensageiro dos deuses
para lembrar a Enéias de sua missão, ele obedece aos deuses e parte com sua
tropa para cumprir sua tarefa de fundar a nova Tróia, se mostrando portanto,
resignado em cumprir seu destino.
Como vimos neste fato, percebemos a
influência dos deuses no mundo terreno, eles estão a todo momento interferindo
nas decisões dos humanos, até mesmo pelo fato de que os deuses tinham um
relacionamento bem íntimo com os humanos.
Se sentindo desprezada, Dido acaba
por se suicidar devido ao abandono de Enéias. Antes de ela se matar, Dido
amaldiçoa Enéias por ele ter sido tão insensível aos sentimentos dela. Desta
forma, Dido invoca um vingador contra os troianos.
"Feliz
fora se nunca os navios trioanos tivessem tocado os nossos litorais. Disse e,
tendo-se lançado sobre o leito, beijando-o Morreremos sem vingança, mas
morramos, diz.[...]
Dissera;
e, enquanto ainda falava, suas damas vêem-na caída sobre o ferro; vêem a espada
espumando com sangue e as mãos desfalecentes."
Este é o motivo mítico que
desencadeou as disputas entre romanos e cartagineses, as Guerras Púnicas. O
cartaginês Anibal representa a figura do vingador de Dido, o qual lutas nas
disputas contra os troianos, mas acaba sendo derrotado, porém com muita
dificuldade.
Percebemos através de tudo que fora
descrito acima, que ao produzir a obra Eneida Vergilio delineou a identidade do
povo romano e justificou fatos históricos, partindo dos mitos e das lendas da
Fundação de Roma, no qual observamos a presença dos deuses no meio dos humanos,
os amores, as paixões arrebatadouras tanto de seres mortais quanto dos deuses.
Percebemos que o mundo humano e o mundo divino atuam lado a lado, porém, a
força maior que está acima de tudo, de deuses e humanos é o destino.
Referências bibliográficas:
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