quarta-feira, 18 de julho de 2012


O MUNDO HUMANO X O MUNDO DIVINO NAS EPOPÉIAS

           Podemos considerar a epopéia Eneida como uma obra de tom mitológico e histórico. Mitológico por utilizar lendas tradicionais do povo romano para narrar a história do herói Enéias e histórico por narrar os grandes feitos heróicos de um povo, enaltecendo a origem do povo romano bem como os feitos do imperador Augusto.
          O povo romano é descendente do herói Enéias, filho da deusa Vênus e do mortal Anquises. Como podemos perceber, o povo daquela época utilizava a mitologia para explicar todas as coisas. Havia envolvimento de humanos com deuses, nasciam filhos destes casos e os deuses estavam envolvidos nos assuntos terrenos. Com o tempo, os mitos foram adquirindo uma conotação literária. A lenda de Dido, por exemplo, justifica um acontecimento extremamente importante da história de Roma: as Guerras Púnicas.
          Como dito anteriormente, em Eneida percebemos o tom mitológico ao ponto que a todo momento os deuses estão influenciando e conspirando a favor ou contra os humanos. Todas as desventuras que acontecem com o herói Enéias, por exemplo, estão associadas à deusa Juno. Ela está a todo momento tentando atrapalhar a vida de Enéias, porque ela não quer que ele funde uma nova Tróia, pois ela já sabia que a descendência de Enéias, os romanos, iriam destruir a cidade que lhe era mais querida, a cidade de Cartago.
          Percebemos aqui o sentimentalismo existente entre um ser divino e toda uma cidade de seres mortais, os quais prestavam culto aos deuses, faziam oferendas, em especial a deusa Juno, e portanto, eram queridos por ela, ela nutria um carinho especial por aquela cidade, evidenciando assim, o contato direto e sentimental entre o mundo divino e o mundo humano.
           A deusa Juno engana a deusa Vênus, mãe de Enéias e Vênus desperta a paixão em Dido por Enéias. Porém, como sabemos, Enéias era conhecido, principalmente por sua pietas, que para os romanos consistia em obediência total aos deuses, ou aos superiores, mesmo que para essa obediência fosse necessário se restringir de algo que desse prazer e alegria. Enéias demosntra ser um homem de missão, cumpre seus deveres. Portanto, mesmo se envolvendo amorosamente com a rainha Dido, Enéias não se deixa levar pela paixão, e abandona Dido, a rainha de Cartago.

"E já as terras eram inundadas com a nova luz da Aurora[...] quando a rainha, do alto do palácio, vendo a limpidez do dia que começava a surgir e a frota que se afastava com as velas enfunadas, percebeu que a praia estava deserta e o porto sem remadores. Três e quatro vezes, com sua mão feriu o belo seio e arrancou os loiros cabelos: Ai de mim! Júpiter, ele partirá"[...]

            Enéias não se comove com o sofrimento de Dido, e assim que Júpiter envia Mercúrio o mensageiro dos deuses para lembrar a Enéias de sua missão, ele obedece aos deuses e parte com sua tropa para cumprir sua tarefa de fundar a nova Tróia, se mostrando portanto, resignado em cumprir seu destino.
            Como vimos neste fato, percebemos a influência dos deuses no mundo terreno, eles estão a todo momento interferindo nas decisões dos humanos, até mesmo pelo fato de que os deuses tinham um relacionamento bem íntimo com os humanos.  
             Se sentindo desprezada, Dido acaba por se suicidar devido ao abandono de Enéias. Antes de ela se matar, Dido amaldiçoa Enéias por ele ter sido tão insensível aos sentimentos dela. Desta forma, Dido invoca um vingador contra os troianos.

"Feliz fora se nunca os navios trioanos tivessem tocado os nossos litorais. Disse e, tendo-se lançado sobre o leito, beijando-o Morreremos sem vingança, mas morramos, diz.[...]
Dissera; e, enquanto ainda falava, suas damas vêem-na caída sobre o ferro; vêem a espada espumando com sangue e as mãos desfalecentes."

            Este é o motivo mítico que desencadeou as disputas entre romanos e cartagineses, as Guerras Púnicas. O cartaginês Anibal representa a figura do vingador de Dido, o qual lutas nas disputas contra os troianos, mas acaba sendo derrotado, porém com muita dificuldade.
            Percebemos através de tudo que fora descrito acima, que ao produzir a obra Eneida Vergilio delineou a identidade do povo romano e justificou fatos históricos, partindo dos mitos e das lendas da Fundação de Roma, no qual observamos a presença dos deuses no meio dos humanos, os amores, as paixões arrebatadouras tanto de seres mortais quanto dos deuses. Percebemos que o mundo humano e o mundo divino atuam lado a lado, porém, a força maior que está acima de tudo, de deuses e humanos é o destino.



Referências bibliográficas:


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